O mapa explica de onde viemos. O caráter revela quem somos.
Imagem ilustrativa.
MÔNICA BASTOS | O problema não está no mapa.
Diante das manifestações de xenofobia contra nordestinos, é compreensível que surja indignação. É preciso, sim, reconhecer o preconceito e não normalizar aquilo que humilha, desqualifica ou tenta diminuir alguém por sua origem.
Mas existe uma reflexão que vai além da defesa de uma região.
Quando respondemos colocando uma região contra outra, corremos o risco de aceitar a mesma lógica que deveríamos rejeitar: a ideia de que milhões de pessoas podem ser reduzidas ao comportamento de algumas.
Não é o Nordeste, o Sul, o Norte, o Centro-Oeste ou o Sudeste que ofendem. São pessoas.
O lugar onde alguém nasceu explica sua origem. Não explica seu caráter. O mapa mostra onde alguém nasceu. Não mostra quem alguém escolheu ser.
O preconceito não tem sotaque. A homofobia não pertence a uma região. A violência contra uma mulher não é característica de um Estado. A crueldade contra um animal não tem bandeira.
A arrogância de quem humilha um garçom, destrata um entregador, ofende um motorista de aplicativo ou trata alguém com desprezo porque acredita ser socialmente superior também não nasceu em determinada parte do país.
Nada disso é regional. É escolha.
Existe gente extraordinária em todos os cantos deste país. Gente generosa, honesta, trabalhadora, solidária, capaz de estender a mão a quem nunca conheceu. Gente que transforma a própria dificuldade em empatia e a própria história em força para ajudar alguém.
Mas também há gente cruel. Gente que machuca, que humilha, que agride e gente que precisa transformar o outro em inferior para sentir-se superior. E nenhuma dessas características vem acompanhada de um CEP.
Talvez por isso seja tão perigoso transformar o comportamento de alguns na identidade de muitos.
Quando alguém comete uma atrocidade e procuramos uma região, uma classe, uma religião, uma profissão ou qualquer outro grupo ao qual aquela pessoa pertença para explicar o que aconteceu, deixamos de olhar para o indivíduo.
Um nordestino não representa todos os nordestinos. Um sulista não representa todos os sulistas. Um brasileiro não representa todos os brasileiros. Cada pessoa responde pelo próprio caráter. E caráter não é regional.
Somos um país diverso, cheio de sotaques, histórias, costumes e maneiras diferentes de enxergar a vida. Um país que pode discordar sem precisar se odiar.
Há muito que nos separa. Mas há também muito mais que nos une.
Talvez esteja na hora de parar de transformar diferenças regionais em fronteiras humanas.
Uma região não pede desculpas pelo caráter de seus habitantes. Assim como nenhuma região pode reivindicar para si o monopólio da virtude.
O Brasil é feito de gente. Gente que constrói. E, infelizmente, gente que destrói. Mas o endereço não explica nenhuma dessas coisas.
E talvez essa seja a conversa que realmente precisamos ter.
Não sobre qual região é melhor. Mas sobre a responsabilidade de cada um pelo tipo de pessoa que escolhe ser. Porque, no fim, o preconceito não começa em um Estado.
Começa dentro de alguém.
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