O lado que não escolhemos
■ Imagem ilustrativa.
MÔNICA BASTOS | Nos últimos dias, o país foi tomado por comoção após a notícia de que, um pai matou os dois filhos e, em seguida, tirou a própria vida. As redes sociais foram inundadas de sentenças e disputas morais. A sociedade elege culpados: há quem responsabiliza a esposa pela traição, outros culpam o marido pela incapacidade de lidar com a dor.
Entre uma narrativa e outra, instala-se a ilusão de que, escolher um lado traz lógica ao caos. Mas na verdade, as únicas vítimas inocentes eram as crianças.
Quando crianças morrem nas mãos de quem deveria protegê-las, o dano vai além da família. O lar, promessa de abrigo, deixa de ser certeza. A figura do pai, associada à proteção, se inverte. Mas a inversão não é apenas masculina: quando qualquer protetor falha, a fratura é mais do que doméstica, é cultural.
Nada relativiza o ato cometido. A responsabilidade direta pela morte das crianças pertence a quem as matou. Sofrimento não é licença para violência. Traição não justifica assassinato.
Mas se quisermos extrair alguma lição além da indignação, precisamos ir além da superfície. Crimes assim não surgem do nada. São, muitas vezes, o desfecho de relações deterioradas, comunicação rompida, sinais de instabilidade emocional, que, enquanto acontecem, podem ser normalizados em nome da manutenção de uma estrutura que já não se sustenta.
É aqui que surge a responsabilidade compartilhada de proteger as crianças, que vai além da culpa direta. Conflitos conjugais pertencem ao casal, mas a proteção dos filhos é dever de ambos os pais, independentemente das falhas do outro. A prioridade precisa deixar de ser a disputa e passar a ser a segurança das crianças.
Isso significa reconhecer riscos, buscar ajuda. Significa compreender que a parentalidade exige vigilância emocional constante, sobre si mesmo e sobre o outro genitor. Quando essa maturidade falha, as crianças ficam expostas.
Não se trata de dividir a autoria do crime, mas de admitir que a segurança das crianças depende integralmente da responsabilidade e da maturidade dos adultos ao redor.
Precisamos de um debate sobre maturidade emocional, responsabilidade afetiva e preparo para a parentalidade. Falamos sobre enxoval, parto, escola, mas falamos pouco sobre regulação emocional, manejo de rejeição ou término de relacionamento sem que o ódio ultrapasse o amor pelos filhos.
Talvez estejamos formando adultos aptos a trabalhar e competir, mas nem sempre aptos a amar de forma responsável. Quando tragédias como essa acontecem, a sociedade deve se perguntar: estamos atentos a sinais de instabilidade familiar? Estamos ensinando adultos a proteger aqueles que não podem se proteger sozinhos?
A indignação é legítima, o julgamento, compreensível. Mas a mudança começa quando a discussão deixa de girar em torno da traição de um ou da instabilidade do outro e passa a girar em torno da proteção compartilhada. Crianças não deveriam depender da estabilidade eventual de um dos pais, mas da maturidade e responsabilidade de ambos.
Proteger crianças não começa no tribunal, mas na formação de adultos capazes de suportar frustrações sem destruir quem dependem deles. Começa na compreensão de que, acima de qualquer conflito entre o casal, existe um dever que jamais pode ser traído: o dever de proteger quem não tem como se proteger sozinho.
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