O ex-diretor administrativo da Assembleia Legislativa, Francisco Ricardo Neto, foi detido ontem ao depor na Comissão Parlamentar de Inquérito (CPI) que investiga a instalação de aparelhos de bloqueio e escutas telefônicas na Casa. A prisão foi pedida pelo presidente da CPI, deputado Marcelo Rangel (PPS), que acusou Neto de mentir à comissão ao alegar que ele teria feito a aquisição e instalação dos equipamentos por conta própria, sem qualquer ordem por parte de integrantes da Mesa Executiva da Assembleia na gestão passada, presidida pelo deputado Nelson Justus (DEM).
Os equipamentos foram encontrados no início de fevereiro, nos gabinetes da presidência e da 1ª Secretaria da Assembleia, após varredura determinada pela nova Mesa Executiva, comandada pelo deputado Valdir Rossoni (PSDB). No primeiro depoimento à CPI, Ricardo Neto chegou a afirmar que eles teriam sido adquiridos e instalados por ordem de Sérgio Monteiro, ex-chefe de gabinete da Presidência na gestão Nelson Justus. Tanto Monteiro quanto Justus, porém, negaram qualquer participação no processo.
Depois de ser convocado para novo depoimento, na semana passada, e não comparecido, o ex-diretor administrativo foi intimado pela CPI. E ontem, ao ser questionado sobre suas declarações anteriores, Ricardo Neto voltou atrás e se contradisse. Ele afirmou que o aparelho foi colocado na sala de reuniões da Presidência e na sala do chefe de gabinete do 1º secretário por um funcionário que estaria na Assembleia fazendo reparos. De acordo com Neto, o aparelho veio praticamente montado na caixa, sendo exigida apenas a ligação dos cabos. “Recebi o equipamento e fiz a ligação dos cabos. Era uma instalação extremamente simples”, alegou.
O perito da Embrasil, Antônio Carlos Walger, responsável pela vistoria que encontrou os equipamentos, reafirmou que mesmo com a suposta ligação de cabos, a instalação dos aparelhos exigia conhecimentos técnicos mais aprofundados. “Vejo que os equipamentos apresentavam alguma complexidade para instalação. Não seria o caso de, somente, ligar os cabos”, apontou.
Também em novo depoimento, o então chefe de gabinete do ex-presidente Nelson Justus, Sérgio Monteiro, reafirmou que não tinha conhecimento dos aparelhos, e tampouco solicitou a instalação de bloqueadores na sala da Presidência. “Já foi mencionado até pelo ex-presidente que quando deixamos a sala, foi feita a sugestão da varredura. Se alguém foi grampeado, fomos nós”, garantiu.
O presidente da CPI, Marcelo Rangel, tentou convencer Ricardo Neto a informar de onde teria partido a ordem para a aquisição dos aparelhos e a instalação dos mesmos, mas ele manteve a versão de que teria feito tudo por conta própria. Rangel então deu ordem de prisão ao ex-diretor e pediu que a Polícia Legislativa o encaminhasse ao Centro de Operações Policiais Especiais da Polícia Civil (Cope).
O advogado do ex-diretor, Marden Esper Maués, criticou a decisão, apontando abuso de poder pela CPI. “Houve falta de conhecimento de causa. No meu entendimento houve sim abuso de autoridade”, alegou.
Covardia - A prisão provocou polêmica entre os deputados. Durante a sessão no plenário, o deputado Fábio Camargo (PTB) criticou a ordem de Rangel, classificando-a de “covardia”. “O Francisco está escondendo o jogo. Está protegendo alguém. A gente sabe que ele é apenas um funcionário humilde. Não foi ele que quis instalar esse equipamento”, disse. Camargo alegou ainda que também ouviu muitas mentiras quando presidia a CPI das Falências, suspensa pela Justiça. Rangel então questionou porque ele não havia determinado a prisão dos depoentes, iniciando um bate-boca em plenário.
Outros deputados criticaram Rangel. “Os funcionários da Casa estão virando bode expiatório”, disse Raska Rodrigues (PV). “Concordo que esse é ‘peixe pequeno’”, avaliou Roberto Aciolli (PV). “Arroubos de valentia não contribuem para nada. Para prender alguém é preciso ordem da Justiça”, reclamou Nereu Moura (PMDB).
Rangel defendeu sua decisão. “O presidente da CPI tem a responsabilidade de dar voz de prisão ao depoente que faltar com a verdade, omitir e mentir. Pra ser sincero, não gostaria de tê-lo feito. Mas como presidente da CPI não tinha outra alternativa”, alegou. “Por diversas vezes ele faltou com a verdade. Todos os parlamentares presentes admitiram isso, inclusive o deputado Fábio Camargo”, lembrou. (IS)
Fonte: bemparana.com.br






