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Sérgio Pessoa - Estuda Direito na Universidade do Estado da Bahia, em Juazeiro-Ba. É colaborador do Página Revista. Contato: sergiopessoaf@hotmail.com |
Estou no seio da classe média amargurada. Percebo todo o remorso enquanto ouço o noticiário sensasionalista e vejo como eles se comportam. Eu sei: sou classe média amargurada, mas sou como doente que conhece a sua doença, e se quiser, sou masoquista por investigar a minha própria dor.
Não tenho outros pensamentos para vos apresentar senão aquele, controverso, que tenho cultivado: as tentativas milenares de repressão das forças dionisíacas causaram ao longo da história, e causam no meu tempo, um bruto remorso (que, "esta é a causa da repressão", dirão. eu digo: nesse pensamento não há causalidade, ele é feito sem compromisso, nele não se pensa!).
Agora, o que nos importa é que tudo isso gerou um sujeito todo ridículo, postiço, esquartejado pelo rechaço, e depois, por si mesmo. Já não há si mesmo. Porque o si mesmo é o descompromisso, ou o compromisso con-sigo, o que já, também, não há!
A diluição do si mesmo é a essência do cidadão-de-bem, o típico classe média amargurada, que procura aparentar uma densa toga de valores, princípios, conhecimento e riqueza, que por razão dos princípios e valores que orientam o seu uso, não tem direção, ou tendo-a, revela-se, paradoxalmente, vazia.
O cidadão-de-bem é guiado pelo bom senso, que é um elemento desconhecido, a-histórico, que tem uma pujante transcendentalidade, mas que insiste em negá-la, como tudo ou quase tudo que envolve o ideal desse sujeito.
O cidadão-de-bem refugia-se, hoje, num, cada vez mais gordo, estrato social: a classe média. Se esta camada se formou pelos cidadãos-de-bem, ou, se estes já a encontraram pronta, não o sabemos nem nos interessa. Só conhecemos o que nos interessa. O conhecimento é um interesse.
Conhecemos, sim, que este ambiente social está a postos para a defesa dos interesses medianos, frágeis interesses, e se comportam como soldados, que recebem ordens sem saber de onde ou de quem, talvez de um deus ou de um ator de novela, isso não importa: o que o sujeito quer é uma direção qualquer, um sentido qualquer que lhe faça esquecer o sofrimento de não saber por que sofrer.
Está classe plebeia e nobre, que abarca o patrão e o operário, que viaja a Londres e lhe falta grana é a classe do meu tempo, sou dela, estou dentro dela e a vejo na TV, no shopping center e em tudo que se considera "moderno".
Apesar de o Página Revista ser um jornal regional, eu não posso me furtar de informar os leitores acerca dos acontecimentos mundialmente relevantes, tendo em vista o condicionamento desses fatos ante a nossa realidade quotidiana, que sensivelmente vem sendo alterada.
Ademais, cometo outra falha ao abordar um tema já esquecido por parte da mídia brasileira, que se esmera em informar quantitativamente o cidadão de bem.
Então, vamos lá: no século XX, o Ocidente patrocinou e vivenciou os dois maiores confrontos bélicos de todos os tempos, as duas Grandes Guerras, motivadas e advindas da prepotência ocidental de pôr o mundo em ordem, de eliminar as diferenças, os diferentes, de clarear a zona de penumbra e neutralizar toda e qualquer estranheza. Isso, no entanto, é demasiado antigo, pois essa ânsia de homogeneização do mundo já estava bastante em evidência no Tratado de Tordesilhas, que propôs uma nova “invenção e divisão do mundo”.
No século passado, contudo, essa intolerância à ambivalência explorou todos os limites, afinal, após as duas Guerras Mundiais, o Ocidente ainda não se satisfez com a ordem mundial estabelecida, e empreendeu um novo confronto, afinal, haviam duas grandes potências, os Estados Unidos e a União Soviética, proferindo discursos completamente diferentes (ou não?), que criavam uma certa imprecisão, uma certa dúvida quanto ao melhor caminho a ser seguido, e, como ao ser humano não lhe agradam as inseguranças, resultou, como melhor saída para esse impasse, a gestação de uma nova guerra, desta vez silenciosa (silenciosa?), indireta (indireta?), e, como todos dizem, Fria (fria?).
O engraçado – e terrível – é que, apesar de todas as tensões provenientes da Guerra Fria, esta cessou aparentemente com a desordem global, uma vez que agora, desde o ano de 1991, o mundo conta com apenas uma grande potência a estabelecer a cultura, a definir os padrões, a ditar a normas e os caminhos mais seguros a serem seguidos por todos os indivíduos do mundo, inclusive você, leitor, que usa calça jeans, come hambúrguer e acha a Angelina Jolie linda.
Mas como eu disse, a organização do mundo era sentida tão-somente aparentemente, afinal de 2001 pra cá, assistimos ao surgimento de um novo confronto, uma nova luta contra o desconhecido, o estranho, o diferente: insatisfeito com sua tacanha liderança ocidental, os Estados Unidos, fielmente apoiados por todos os países civilizados, somaram seus esforços no sentido de eliminar a ambivalência oriental, dando início a uma nora era de turbulências, mais uma vez gerada pela prepotência ocidental de homogeneização do mundo e intolerância ao indeterminado.
Criou-se, então, um inimigo imaginário, cheio de alegorias e mistérios, isto é, inventou-se, estrategicamente, a figura folclórica do terrorismo, o adversário malvado do Ocidente, e que, até alguns dias atrás, era fisicamente representado pelo mulçumano Osama Bin Laden.
Ultimamente, assistimos e acompanhamos midiaticamente as notícias sobre a morte de Osama, seus porquês oficiais e, sobretudo, o que foi feito com o seu corpo: lançado ao mar, para que o povo que crê em sua ideologia, visão de mundo e fé não possa fazer do seu túmulo um lugar sagrado de peregrinação ou devoção.
Assim, apesar de não me lembrar precisamente o dia em que Osama foi assassinado, lembro de outro fato que sucedeu na mesma data: o papa João Paulo II, na imaculada paz do Vaticano, foi beatificado, e, dessa forma, tornou-se símbolo de devoção universal, cujo túmulo poderá – e será – destino de peregrinação de boa parte do mundo, com todo o direito a sê-lo.
O mundo não segue a ordem aparentemente calculável e previsível da vida, pelo contrário, ele constrói todo o cálculo e previsão, e impõe aos indivíduos estes padrões de uma forma tão meticulosa, que estes crêem fielmente que os seguem por seus próprios quereres.







