INICIAL
Anne Crystie - Estuda Psicologia na Universidade Federal do Vale do São Francisco, na cidade de Petrolina/PE.
É xiquexiquense e colaboradora do Página Revista.
Contato: annecrystie@hotmail.com
Janeiro de 2012
Política versus Politicagem
É tempo de refletir o resultado da aritmética que pesa os pontos positivos e negativos dos comportamentos da classe e de seu representante.

Escrito por Anne Crystie.
Correio eletrônico: annecrystie@hotmail.com

 

Salve 1º de janeiro! É chegado o “ano de ouro”, quando, com os nervos à flor da pele, um, dois, três ou cinco cidadãos de bem, homens do povo, voam rumo aos púlpitos governamentais. Alguns deles foram árduos operários ou sonhadores nos últimos três anos e outros aproveitaram o prazer das praias do exterior. Um possivelmente foi nomeado de surpresa, dois emprestaram o nome e o quinto quer ganhar dinheiro e ser popular. Tem ainda aqueles que estudam Marx e distinguem perfeitamente a mão direita da esquerda. Os da tradição, que acreditam no potencial da família enquanto instituição... O homem de boa oratória... Até que pra última chapa, então, há sempre um deus que abrirá os mares!


Ano de política, no qual as pessoas, como nos anos anteriores e todos os anos, fazem uso em potencial do seu direito e/ou dever de eleitor. É tempo de refletir o resultado da aritmética que pesa os pontos positivos e negativos dos comportamentos da classe e de seu representante. Diferente do último apenas por resguardar em um dos seus meses o evento da eleição, 2012 deveria ser simples assim caso, claro, vivêssemos o ideal da política ao invés da realidade da politicagem.


Nos cientistas sociais mais arcaicos somos capazes de ler que o homem em sociedade é um ser naturalmente político. É a política que organiza as aptidões de cada um a fim de que todos, dando um pouco de si, ajudem aos seus e aos outros. Nela devemos encontrar a garantia da igualdade, de que os peixes e pães chegarão à mesa dos brancos, pretos e cinzas. Das mais antigas, é a arte de proferir a palavra de um conglomerado pela boca de apenas um e a astúcia de fazer valer a todos meio ao pluralismo de necessidades e opiniões. É bonito de se ver e, infelizmente, tem sido difícil de se viver.


Luís, Barack, Getúlio, Hugo, Adolf, Evo, George, Ernesto, Fernandos... Em sua minoria do sexo feminino, muitos são os apelidos que se atreveram a ocupar a comissão de frente por uma sociedade mais democrática, aristocrática, comunista, capitalista, socialista, humanista, individualista... Igualitário ou hierarquizado, não se sabe. Pois o que importa é que somos todos do grupo ou companheiros dos opositores a ele. É que ao que parece não é a ideologia que tem alimentado os partidos e coligações e nem a justiça que tem impulsionado os do contra: estamos cada vez mais (des) protegidos pela politicagem!


Se a saúde ficou por conta do estado, direi que o prefeito não tem competência, criarei nova secretaria para empregar um candidato a vereador não eleito, assumirei sem qualificação o status de uma coordenação, aceitarei os tijolos que faltam no muro e aprenderei que tudo se resolve depois do carnaval na pizzaria. Um jogo de sistema e soldados que nos bestializa o tempo inteiro enquanto procuramos em quem pôr a culpa, quando, em verdade, somos peça do quebra-cabeça. Pois não tem importado a real denotação de “ser político”: o mais divertido é “ser politiqueiro”, beber cerveja de graça no dia do comício e torcer para que minha irmã receba sem trabalhar ao mesmo tempo em que meus filhos não têm escola de qualidade.


Se inconsciente ou não, nutrindo-nos de ignorância não percebemos que tirando proveito daquilo que é de todos (ou do outro) estamos burlando a nós mesmos. É que na brincadeira do cooperativismo das aptidões, tudo que vai, volta. E é assim que se mais vale um voto do contratado que a dedicação do concursado, preferimos ao invés de eliminar um pino, derrubar todo o tabuleiro. “Antes minha conta bancária repleta de dólares advindos da cueca ou das meias, que o agricultor, antigo sem terra, enriquecendo minha empresa de implementos agrícolas”...


Pelo rico cada vez mais rico e o pobre cada vez mais miserável! E assim caminha um país que canta a “erradicação da pobreza”: impossibilitado de fazer bom uso do poder que tem nas mãos por conta das cartas que esconde nas mangas. Longe, e um pouco mais longe, do pódio pleonástico da “política para todos” e perto, excessivamente do lado, das piscinas da politicagem, que jorram ondas de exclusão, afogando esses nossos ideais insossos de bons samaritanos. E viva 7 de outubro!

Outubro de 2011
A solução é educação!
Abaixo a modéstia, digo como a cantora de Raio da Silibrina que: “a solução é educação, para evoluir essa nação!”

Escrito por Anne Crystie.

Correio eletrônico: annecrystie@hotmail.com

 

Pode parecer inusitado, mas a inspiração primeira para as palavras que hoje aqui escrevo não veio dos murmurinhos sobre evasão e muito menos da medicalização da diversidade na escola. É um entusiasmo fruto do gingado do forró, filho de uma companhia que, há uns dez anos atrás, talvez, remexia os casais animados questionando onde estaria a ordem e o progresso de nossa bandeira.
As práticas educacionais que me formaram por hora têm me intrigado imensamente. Não que eu não tenha conhecido ótimos educadores e aprendido a ler e escrever no tempo certo. Longe disso! Sou grata, inclusive, por ter tido professores-pessoas que me apresentaram para além da raiz quadrada de oitenta e um, a possibilidade que eu tenho de negar toda a matemática, caso assim me apeteça.


O incômodo que me acomete, fora todas as inconsistências que poderíamos citar, uma por uma, em relação às políticas educacionais brasileiras, gira em torno dos processos avaliativos vigentes que, audaciosamente, classificam não só os alunos, como toda a população brasileira, em aptos ou não aptos a rodada de dados seguintes. Aproveitando-me do que tem repetido a moça na televisão nos últimos dias, pela proximidade do Exame Nacional do Ensino Médio – ENEM: “o caminho mais democrático” para ter passe livre a qualquer coisa que envolva educação no país não me parece nada popular.


No curso de Psicologia, nos livros de poesia e nas batalhas da vida diária nos deparamos inocentemente com uma indagação chamada “subjetividade”. E aí que os professores têm que acompanhar os ritmos de cada criança numa sala de quarenta, os coordenadores distribuir simpatias de acordo com as classes matutinas, vespertinas e noturnas e os diretores valorizar e criticar o que as crianças, os professores e os coordenadores têm de melhor e de pior, respectivamente. Afinal, que qualidade de subjetivo os modelos de avaliação que nos nivelam resguardam?


Dona Maria, que mora há muitos quilômetros do centro da cidade, prepara chás farmacêuticos como ninguém e é capaz de olhar o céu indicando as horas e o clima que estão por vir. Zezinho, duas ruas depois do centro, pega nos livros de vez em quando, ajuda o pai consertando bicicletas, entende de mecânica de carros aos dez anos e teatraliza de forma encantadora um grande cientista. Antônio, mora em outra cidade do interior, recém-formado em Medicina, passou no vestibular em uma boa colocação e ainda decide o que fazer da residência. Quem está presente, mestre? Ou quem leva nove na arguição de geografia?


Saber ou não saber perpassa por um processo de ensino-aprendizagem muito mais complexo e completo do que podemos analisar em nossos mapas pedagógicos. E por assim dizer, coagir que os filhos da Dona Maria, os irmãos do Zezinho e os pais de Antônio levem cinco horas a marcar “xises” numa folha azul não mede as suas capacidades e lutas para adentrar a qualquer sistema público ou privado de ensino.


Ter educação, diferente de ser controlado, requer para tirar a prova mais que dois dias a cada ano e grande pecado é cometido com aqueles que precisam repetir a sabatina no ano que vem. Ou invés disso, é preciso que os caras lá de cima ampliem as estratégias e vagas democráticas, como dizem, e não que nós, do primeiro emprego aqui embaixo, joguemos na loteria por um reconhecimento público de merecimento e esforço.


Abaixo a modéstia, digo como a cantora de Raio da Silibrina que: “a solução é educação, para evoluir essa nação!” Que todos nós sejamos preparados para reconhecer a sabedoria que é do outro, estimando o conhecimento que é nosso e afrontando o que já está dado por espaço àquilo que não se aprende nas aulinhas de inglês. Uma reeducação como tarefa de casa a todos, para que as subjetividades sejam respeitadas e cada um tenha direito a desfrutar de sua devida carteira nas salas de aula que é o nosso país.

Agosto de 2011
Prazer e lazer: semelhanças e controvérsias
O locutor, com sua voz tentadora e sensual, falou em “prazer e lazer”. E, claro, meus receptáculos críticos começaram a trabalhar.

Num desses movimentos automáticos que fazemos quando entramos no carro, ligaram o rádio. Não me interessei por saber o que haviam sintonizado e muito menos se sintonia havia entre as palavras do locutor e os anseios dos ouvintes atentos. Apenas ouvi. Fui tão automática quanto o rádio ligado!


Dentre tantas discussões que a mídia auditiva é capaz de provocar, naquele dia, um par de substantivos, unidos por uma conjunção, tirou-me da passividade preguiçosa. O locutor, com sua voz tentadora e sensual, falou em “prazer e lazer”. E, claro, meus receptáculos críticos começaram a trabalhar.


Há muito que se discute acerca do prazer – mais do que sobre o lazer, inclusive. Um casal clichê nas aulas de psicologia das organizações, nas planilhas de recrutamento e seleção dos administradores ou mesmo nas agendas sempre lotadas do trabalhador sonhador mensalista que sai de casa às sete da manhã: prazer e lazer. O que aproxima e distancia ter lazer de ter prazer e vice-versa?


Uma infinidade de pensadores da vida encheriam jornais de definições de prazer e/ou de lazer. Mas, para ser curta como os nossos fins de semanas de lazer, o prazer é aquilo que proporciona o bem-estar do organismo e da própria vida, eu diria. É o amolecimento que dura milésimos de segundo quando tomamos um sorvete da fruta desejada ou a água que nos enche os olhos ao assistirmos a um filho levantar o diploma da faculdade. Ter prazer, suas conceituações, limitações, exemplificações, é tudo o que você viveu até aqui que te fez sorrir com o corpo e com a alma – independente do que venha a ser a alma.


Lazer, do latim licere, significa tempo livre, vagar, ócio. Do brasileiro, sábados, domingos e feriados, significa tudo que não é dever; os passatempos que procuramos nas horas vagas ou os piqueniques que fazemos para extravasar o estresse acumulado pelas obrigações cumpridas e para recarregar as energias requeridas pela próxima segunda-feira. Os barzinhos para onde vamos; as piscinas e a casa da vovó.


Além da rima, prazer e lazer são palavras que vivencialmente têm se assemelhado em significado. Somos empurrados a pensar que tudo que é lazer nos dar prazer e que só se tem prazer nos momentos de lazer. No entanto, há controvérsias. Prazer e lazer não são sinônimos! Por mais que a nossa cultura faça parecer, eles não substituem um ao outro.


Pimentel, numa de suas reflexões cariocas, contemplou-me imensamente quando afirmou que “o prazer não está em dedicar um tempo programado para o ócio. O prazer é residente. Está dentro de nós, na maneira como a gente se relaciona com o mundo.” Não é preciso que os domingos de sol nasçam ou as baladas de sábado à noite aconteçam para, pois ter prazer está nas pequenas e todas as coisas; no desfrute que fazemos delas.


Por mais difícil que seja compreenderpara alguns, no trabalho ou no estudo, quando menos temos tempo livre ou ócio, o prazer pode está presente. Ele está em nós! Está em sentir; em tudo o que fazemos atendendo aos pedidos de nós mesmos.


Já o lazer, ele não é causa: é consequência. Resultado das nossas vontades de estar em paz, de querer bem a nós mesmos. Ter lazer é buscar prazer e não o contrário. Na sociedade moderna há muito lazer e pouco prazer, como colocou a escritora Chantal Thomas. E isso porque perdemos tempo buscando o prazer nas coisas, enquanto deveríamos tentar descobri-lo em nós.

Perpassamos as horas reclamando da ausência de lazer na cidade, quando nada é lazer se não for prazer primeiro.


Ainda mais legal do que unir o útil ao agradável, é unir o agradável ao agradável. (Ruy Castro) Vivamos o prazer nas horas de lazer e também quando não tivermos tempo para nada. Se algum dia formos capazes de preencher a vida com coisas que nos dão prazer, acredite, os sábado, domingos e feriados serão indispensáveis, pois serão todos os dias! E assim, desejo-lhe que tenha lazer e prazer. Mas que o prazer venha antes, nas horas vagas e nas ocupadas.

Junho de 2011

Amadurecer é adaptar-se!

Amadurecer é adaptar-se com delicadeza às novas praças que o mundo tem a oferecer! É enxergar os livros empoeirados na estante como atemporais e vislumbrar a magia do alvorecer com o poder e a beleza da juventude. Quanto mais velhos ficamos, mais diferentes somos.

Um fenômeno que, em particular, me chama bastante atenção é o modo como o tempo perpassa o nosso desenvolvimento. Todos os dias, quando nos levantamos ou nos deitamos, já não somos mais os mesmos. As mãos parecem mais enrugadas ou os olhos de brilho mais intenso: envelhecemos e, por vezes, estamos mais cheios de vida.


Da sala de estar de casa ao saquinho de leite na padaria, são exigidos de nós infindos modos de estar no mundo. Garfos para peixes, bolos e camarões, outros, meio tortos, para brincar de aviãozinho e já não sabemos que talher escolher para fotografia de nosso personagem preferido conforme as ocasiões.


Com a dinâmica acelerada da tecnologia e o modo como todos os dias a roda é reinventada, é preciso que estejamos cada vez mais aptos a selecionar os garfos, as funções no celular, as músicas no rádio, o programa preferido na TV e mesmo com que cara olhamos as mudanças que moram ao lado, se quisermos acompanhar com saúde a rotação do universo.


Um psiquiatra alemão chamado Erik Erikson, responsável pela constituição de uma teoria sobre o desenvolvimento psicossocial humano, atenciosamente e, por que não dizer, poeticamente, nos disse que a maturação do homem se expressa pelas formas como ele sabiamente aprende a lidar com o movimento continuado das coisas que estão ao seu redor. São as pessoas que vêm e vão, as alegrias que partem e as tristezas que ficam, os novos números na agenda digital, os hits que já não são, ou são, bossa nova e rock and roll...


Amadurecer é adaptar-se com delicadeza às novas praças que o mundo tem a oferecer! É enxergar os livros empoeirados na estante como atemporais e vislumbrar a magia do alvorecer com o poder e a beleza da juventude. Quanto mais velhos ficamos, mais diferentes somos. E são nessas diferenças que estão as qualidades de sermos pessoas maduras ou imaturas e, por assim dizer, pessoas mais ou menos ajustadas ao meio em que vivem.


E o que ou quem somos afinal?! Parafraseando Erikson, somos aquilo que sobrevive de nós a cada instante. As experiências que ficam e as que faltam; o tempo que morre e o novo horizonte que nasce sem ter hora pra acabar. Ou ainda, como diria Shakespeare, “nós somos feitos do tecido de que são feitos os sonhos”. Estamos vestidos dos anseios de viver as novas realidades com sabedoria e de tirar delas fertilizantes que amadureçam a nossa satisfação.


É certo que nem sempre podemos mudar os fatos para como queiramos que sejam ou fingirmos, por exemplo, que o mundo não é movido a computador. Tudo na vida passa! As calças jeans boca de sino, as palmatórias, as moedas de cruzeiro ou as notas de um real que já não vemos mais... Todavia, nós somos seres homeostáticos e quem um dia irá dizer que viver com saúde diante das transformações não é amadurecer?


Velhos, novos, adultos ou crianças, nada disso importa em se tratando daquilo que podemos ser de verdade. Os capuzes que circundam nossas cabeças nada dizem acerca dos que moram dentro delas. Podemos sim ser senis aos doze anos e infantes aos oitenta e cinco caso respondamos de acordo ou não de acordo às coisas velhas e novas que conhecemos e aproveitemos ou não o que elas têm a nos oferecer.

 

É preciso lavar e passar as fantasias mais modernas que temos para vestir, quer sejam de adolescentes ou de cinqüentões, e dançar conforme a música. Não digo que os amantes das marchinhas de carnaval precisam remexer suas cinturas até o chão ao som do pagodão porque precisamos estar adaptados/maduros. Digo que quanto mais abertos estivermos às mudanças que a vida tem a nos oferecer, mais amadurecidos seremos. E isso, por fim, implica termos êxito e felicidade nas pequenas coisas que fazemos, qualquer que seja o tempo ou o lugar.
Maio de 2011
Bonecas aos meninos, carrinhos às meninas!
O machismo, intrínseco a conjuntura atual, esconde uma lógica que, por vezes, não nos damos conta.

Há dessas coisas no dia-a-dia que nos inquietam a ponto de sermos intolerantes diante de ações e/ou atores. Nas últimas semanas, pois, tenho me atentado facilmente para aquilo que dentro das grandes ou pequenas lutas sociais etiquetam de “desigualdade de gênero” – vulgo machismo.
Desde muito jovens ou, por que não dizer, desde o período pré-natal, somos educados a valorar a classe de gênero que pertencemos, se homem ou mulher, seguindo preceitos que foram traçados “mil anos luz” atrás. (...) São as meninas para casar e os meninos para sustentar a casa! Rosa quando mulher, azul quando homem. E tudo parece tão estagnado que sequer percebemos, às vezes, que o mundo dá voltas...


O conceito de gênero não se refere exatamente aos homens e mulheres, mas as relações entre eles. Esse subentende uma série de processos culturais, sociais, políticos e morais, que atuam como atribuidores de valores a essas relações. Tudo arquitetonicamente prático se, frequentemente, não fosse designado à mulher uma posição subalterna.


O machismo, intrínseco a conjuntura atual, esconde uma lógica que, por vezes, não nos damos conta. Digo: as atitudes de discriminação contra a mulher e a não aceitação da igualdade de direitos entre os gêneros são passadas de geração a geração como se assim houvesse de ser feito. Somos alienados a concordar com uma política que desconsidera o fato das pessoas serem iguais entre si, por não levar em conta a classificação majoritária dessas, que é a de ser humano.
(...) E defendemos que chorar não é coisa de homem, porque a mulher é o sexo frágil; que as roupas são melhor lavadas ou as comidas mais saborosas caso passadas pelas mãos femininas, mas trocar lâmpadas e bater pregos são trabalhos de macho; as mães trocam fraldas e têm seis meses de licença maternidade, enquanto os pais dão broncas e se ausentam apenas cincos dias do trabalho.


Você já parou para pensar que, talvez, se as garotas em suas infâncias brincassem sem culpa com carrinhos evitaríamos essas anedotas de que “mulher no volante: perigo constante”? Não quero validar teorias ou afirmar hegemonia de minha opinião. Ambiciono tão-somente que reflitamos que a fronteira existente entre pessoas que se comportam como homens, ou como mulheres, é mesmo que a linha do Equador: imaginária!


Os meninos podem, sim, brincar de bonecas! Afinal, as bonecas, além de entreter, não servem para que as meninas fantasiem a reprodução, o cuidado e o conceito de família? Homens também reproduzem, cuidam e constroem família. E se sua esposa está grávida: parabéns, você está grávido! Soa estranho, mas esta palavra existe no dicionário.


É isso! Torçamos pelas mulheres no futebol sem preconceito e não questionemos a orientação sexual dos cabeleireiros por sua profissão. Alguns homens varrem muito bem a casa e há excelentes engenheiras por aí. Misturemo-nos neste caldeirão de iguais que se dizem diferentes! A ideologia feminista, ao contrário da machista, não defende que as mulheres sejam superiores, mas que tenhamos todos, homens e mulheres, direitos iguais.


O fim da desigualdade de gênero é uma das chaves para o desenvolvimento. Abramos este baú! Para isto, fica a recomendação de Charlie Chan: “Mente humana, como pára-quedas: funciona melhor aberta."

Fevereiro de 2011
Sobre a morte: o morrer
Estamos para o fim! E, ainda assim, após infinitas idas e despedidas, não há receitas de como sustentar as lágrimas sem derramá-las.

Anne Crystie - Há um tempo venho tentada a escrever sobre a morte e outras tristezas mais. Não sei se movida pela angústia do desconhecido ou pelo desprazer da perda. No entanto, algo me faz transitar insistentemente neste território. E digo-lhe: não há passo mais difícil a ser dado do que aquele que caminha para abraçar o fechamento. Todo o sofrimento e a sua falta de sentido: morrer, até quando?

 

Desde que a humanidade se fez humanidade, seja para os evolucionistas ou criacionistas, os seres vivos se confrontam diariamente com a morte. É um pouco do corpo que se perde ao amanhecer e um tanto de tempo que se despede na “hora do Ângelo”. Estamos para o fim! E, ainda assim, após infinitas idas e despedidas, não há receitas de como sustentar as lágrimas sem derramá-las.

 

Palavras de conforto, abraços mudos, olhares foscos, preces exaltadas, orações desmedidas... Toda e qualquer tentativa para justificar, ou aceitar, o silêncio da falta que se mantém impreenchível. É um braço que se foi, uma boca a menos, dois dedos de compaixão ou um coração fraterno. Pai, filho, vizinho, a moça do noticiário na TV... Conforme a distância é o luto: se pequena, insuportável; se grande, ao menos reflexivo. E a força, que as nossas raízes guardam de ontem, é imprevisível!


“É assim mesmo”, dizem. “As coisas são como Deus quer e acontecem quando chega a hora”. “Tudo que nasce, morre”. (...) Entretanto os jardins continuarão cheios de saudade! Os hinos líricos soarão e, logo mais, quando voltarmos para casa, daremos conta de que seremos eternos ignorantes diante da partida. Uns sentirão mais, outros pouco, e todos emplacarão, como numa lápide, a incerteza dessas coisas sobre a morte.

 

Espera-se que as formigas morram, quando tomam conta da goiabada na cozinha; que as baratas sejam exterminadas, caso roam os armários; até os peixes somos capazes de matar nessa nossa poluição... Mas o homem, que é homem, não há “serial killer” hábil a amparar a sua ausência com alegria. Ficam seus livros na estante, seu lugar vazio à mesa, suas roupas no varal... “Mais uma vida jogada fora. Um coração que já não bate mais, descansa em paz. Sonhos que vão embora, antes da hora. Sonhos que ficam pra trás.” (Gabriel, o Pensador e Lulu Santos).

 

Todas as frases feitas de incentivo não são à-toa. A ampulheta é só uma! E cada grão de areia que cai deveria significar uma meta alcançada. Se estaríamos mais abertos ao vivenciar das possibilidades caso aceitássemos friamente a morte, ainda me ponho a refletir sobre. No entanto, há tempos estou convencida de que levar como lembrança a beleza da vida é a maneira mais confortável de se deixar ir.


(...) “Quando chegou o dia em que ele tinha de partir daqui, muitos o acompanharam até a margem, e ao entrar no rio ele disse: ‘Morte, onde está teu aguilhão?’ E, ao afundar-se ainda mais, disse: ‘Sepulcro, onde está tua vitória?’ E assim fez a travessia, e todas as trombetas soaram para ele do outro lado.” (John Bunyan).

Janeiro de 2011
Vamos brindar a vida!
No mais: “tim-tim” a você!...

Escrito por Anne Crystie - No Brasil, não muito diferente, por exemplo, da cultura norte-americana que vemos nos filmes hollywoodianos, o verão é sinônimo de festa! Não sei se o fervor da época avassala os corações baladeiros, mas, culturalmente falando, tem sido práxis das madrugadas de dezembro e dos amanheceres de janeiro intensificar as alegrias e comemorações: desde os grandes shows de fogos de artifício nas areias de Copacabana até os animados churrasquinhos nas lajes soteropolitanas ou paulistas.

 

Ainda que do nascer estejamos imersos numa sociedade capitalista rezando que tempo é dinheiro, nós, do jeitinho brasileiro de dar, somos banhados por outra identidade: a de povo festivo. No país do carnaval e do samba, acompanhando o “feliz natal” há sempre um, despercebido ou intencional, “boas festas”. Não querendo questionar os discursos ou mesmo interpretá-los, ainda que assim pareça fazer, reflito: Que pretendemos dizer com isto?

 

Nas sociedades primitivas agrícolas viam-se os homens e suas famílias dançando a colheita; nos povos ciganos bebiam-se (e bebem-se) os grandes e luxuosos casamentos que perduravam (perduram) por sete dias; nas cerimônias africanas cantavam-se (e cantam-se) as oferendas e graças. Festejar é do homem! Ele, que atrás dos seus papéis, bem ou mal desempenhados, das suas angústias e desgraças, carrega inerente uma meta: ser feliz!

 

É certo que os desfrutes em excesso enchem as manchetes nos jornais, os noticiários na TV, os lares que, preocupados, esperam o regresso dos filhos da rave. Não há aqui uma alienação quanto a isto. O convite que tenho a fazer é: Vamos brindar a vida! Hoje, ontem, ou atemporal, o tempo voa. Parafraseando o cantor e compositor Lulu Santos: “escorre pelas mãos”. (...) E não há, mesmo, tempo que volte!

 

O que precisamos é nos permitir! Dançar a valsa, batucar o pagode, gritar o rock... Ligar o som do carro, fechar ou abrir as cortinas e co-me-mo-rar! A maior herança que podemos acumular é a satisfação. Sonhar, planejar, desejar: viajar. Viaje! Caminhe por lugares onde nunca esteve, ainda que estes sejam o quintal do vizinho ou as geleiras do Ártico. Encontre gente nova ou amigos velhos, sente numa roda de violão, beba uma taça de vinho... Dê festas! De aniversários ou atemáticas, mas divirta-se simplesmente por estar vivo.

 

Amanhã pode ser que estejamos tristes, que tenhamos celebrado uma partida, que percamos as forças ou a graça... São coisas da vida! Vivamos intensamente as dores, desde que nunca esqueçamos que o não doer é mais confortável. Há sempre outro caminho, um novo hit, outro ingresso, um novo convite... Aceitemos vestir a melhor roupa e sair de casa! Logo mais, cedo ou tarde, os megafones soaram e lá pode estar você novamente: “Se chorei ou se sorri, o importante é que emoções eu vivi...” (Erasmo Carlos e Roberto Carlos).

 

É verão, é inverno, é Brasil, é China, manhã, madrugada, alegria ou tristeza: saibamos aproveitar os momentos de festa! Dançar e sorrir fazem bem para corpo e alma. Não já disseram que “quem canta seus males espanta”? Retruquemos o “boas festas” com um “igualmente” e penetremos no mundo da felicidade. Aceitemos arriscar um passo de balé e comemoremos o existir das possibilidades. No mais: “tim-tim” a você!